Por onde andas?
Em meio a quais notas?
Por meio de quais princípios?
Saudades suas e das inspirações que sempre me causou.
"E perguntarão: Pra onde estamos indo? - Estamos indo sempre pra casa!"
Voltei a lembrar de pensar com cabeça e corpo.
Lembrei de todas as minhas necessidades humanas e carnívoras – aquelas mesmas que esqueci enquanto só pensava em você.
Voltei a mim no exato momento em que decidi deixar tudo que tinha livre, solto, correndo por aí. Presentes e demônios joguei ao vento. Dei-lhe de presente a melhor parte do amor e a marca mais doída que criou-se em mim.
E agora sou leve. Sou vida de novo.
Sabe momentos que vêm, vão, e só deixam uma idéia rasa de que nada aconteceu? Pois foi assim. Assim, desse jeito rápido e rancoroso.
Mas estou feliz. Aprendi que nada que não venha de mim pode me despedaçar por inteiro, tanto como você fez. Não te conhecia e te esperava, eu sei. Mas mesmo chegando com a bondade dos arcanjos são conseguistes ser pra sempre. E é aí que assumo minha culpa.
Nada que não seja eu, da cabeça aos pés, poderá me descompletar e me faltar.
Na minha vastidão sou eu, meus pensamentos e meu coração.
Aprendi a reconhecer minha parte mais bonita.
Mesmo sem você.
Sabiá, Sabiá,
Quanto tempo! Quanta coisa pra contar...
Mal sabes tudo que me aconteceu nesse pouco tempo de primavera.
Sabiá, estou triste. Triste mesmo. Não como algo passageiro, mas como um estado de espírito. Tão ruim ser assim.
Você deve estar rindo agora.
Imaginando: “Humrum, Flor triste...”
Não consegues imaginar, eu sei. Foi difícil para mim me acostumar com isso também.
Sabiá, sabe o que é mais contraditório?
Amei. Me apaixonei. Mergulhei naquela sequência de sensações maravilhosas pro corpo e pro sorriso, como você tanto me aconselhou. Respirei o outro até a última gota – sei que isso não fazia parte do passo-a-passo, mas parecia tão natural. Você sabe como sou com um porto seguro, não sabe? Me finco, me apego e não quero largar mais.
Me deixaram, Sabiá. Me deixaram sozinha, sem rumo. E o que é pior: sem meu amor.
Como podem fazer isso com a gente?
Arrancar algo que é só seu, e que não pertence a ninguém, muito mesmo ao outro, e levá-lo embora, fingindo que aquilo nunca existiu.
Ah, meu amigo, a vida é triste. Assim como sou agora.
Me tornei descrente, acredita?
Me tornei descrente de mim no fim das contas. Do que sou capaz, se consigo mesmo ser alguém, se consigo escrever frases bonitas e coloridas outra vez.
Mas essa coisa de poética fica para a próxima. Já lhe enchi com melancolia demais para apenas uma lauda.
Se cuide. E cuide de mim, mesmo que de longe.
PS: Estou precisando de uma bezendeira? Conhece alguma.
Sua Flor triste.
(New York, abril de 2010)